DO CUBO AO QUADRADO, SIMETRIAS IMPERFEITAS

 

   "Minha proposta é abordar o quadrado/cubo como geometria e suas possibilidades estéticas, partindo de um desenvolvimento matemático. Algumas das obras propostas são formadas pelo acúmulo de quadrados e a sua relação com o espaço. Em outras, quadrados são formados por outras formas geométricas. Em todas, corpos estáticos propondo ações, como expansão, compactação, movimento e outras."
Renato Leal, excerto de texto inédito, 2017

 

 

AGORA 1

Estranhamente, os quadrados converteram-se em cubos e constata-se forte tendência para que desorganizem e ordenem, em trajetos de alternância, o nosso pensamento. Ou talvez, tenham uma conversa, como proporia John Cage na sua “Conferência sobre o Nada”. Os quadrados incorporam volumetria de uma existência que, cada vez mais, resulta da exigência radical de Renato Leal. A metodologia de seu trabalho, exploratória e firme, decorre de uma ideia que se impõe, sendo abordada em variantes que dialogam entre o bi e o tridimensional. A ilusão ótica é a matriz da perceção visual que cinematiza a presença do visitante, gerindo este a obra na sua receção estética. Assim, participa de uma composição visual e quase verbica, pois que as unidades gráficas são silabas de palavras, concebidas a partir de um vocabulário iconográfico. As compilações de sinais convertem-se em iconografias densas e polissémicas, expandidas no espaço vertical e horizontal, em desenhos bi e tridimensionalizados – bem fronteiriços de esculturas. As composições são estipuladas a partir de um manifesto de 9 ações [mutação, rotação, diluição, projeção, desalinhamento, indução, expansão, compressão e distorção] que correspondem às obras concebidas para 9 espaços escolhidos rigorosamente. As peças inéditas suscitam novas assunções poéticas, propiciadas e perante um exercício autoral que glosa a sublimidade compósita - silêncio, quietude e convergência.
Para as Salas de Exposição temporárias da Casa Museu Medeiros e Almeida, Renato Leal concebeu a sequência de 9 obras, a que antes de aludiu, atingindo a maturidade de um processo iniciado em Portugal dois anos atrás e no contexto da residência artística aqui realizada. O eixo congregador dos trabalhos apresentados então, assim como aqueles que agora podemos contemplar, prima pela exigência minuciosa prévia, contemporânea e mesmo posterior à composição que é levada ao extremo rigor. Cada uma das obras toma uma consignação “musical” ou coreográfica”, na medida em que surgem temáticas que se desenrolam em formatos assertivos, glosando variáveis gráficas e trabalhadas em materiais que excedem e reverberam – simultaneamente – as circunscrições e os limites do conceito de desenho, se reduzido a aceções, significados e funções de impacto restritivo.

ANTES 1

Tendo optado pelo desenho sobre pintura ou a pintura desenhada, consoante os casos, como tipologia de trabalho plástico, Renato Leal quis apropriar-se das áreas expositivas, expandindo-as e instalando-se. Assim, surgiu a designação de “desenho instalado”, numa relação que, nalguns casos se associa ao conceito de site specific e noutros, à situação de desenhos efetivos que ocupam as paredes de forma assertiva e inequívoca. Noutros casos, ainda a matriz do desenho tornou-se volumetria, espessura (que não somente pele) e alastrou chão e parede, rebatendo estruturas, grelhas (grids) e redes. Os materiais escolhidos foram aglomerados de madeira, pintados manualmente de preto num exercício simultaneamente de concentração rigorosa e paciência lúdica. A expografia consistiu na justa adequação, tratando as instalações de se ajustarem e configurando os formatos e suportes às áreas previamente definidas in loco. O autor pensou numa situação conjunta, estabelecendo uma conversa entre as 2 obras compósitas. No átrio, as pequenas peças redondas pontuam uma mancha subida à parede e constituída por linhas quase paralelas que insinuam movimentos internos e desafiam a capacidade de observação do visitante. Trata-se de Manifestações #4, da série Atrações (conjunto de 900 peças circulares de madeira, 1,5x1 cm cada uma). Consoante as pessoas circulem no átrio, a sua perceção das peças vai-se alterando significativamente, instaurando um jogo viso-recetivo em aberto. A interpretação visual implica uma acuidade que pode derivar para a evidenciação de tópicos de Gestalt, endereçando associações óticas e cinéticas, mas também associáveis a consignações seriais adstritas a indexação minimalista. As compreensões literais destas linguagens plásticas não se aplicam às intencionalidades do artista em causa. As argumentações convergem para um pensamento estético que exercita o pensamento, numa práxis viso-poética que propicia uma configuração poético-concreta, aqui tridimensionalizada e instalada na arquitetura do lugar. Na sala principal a instalação intitulada Movimento #8, da série Fluxos rebate numa superfície, configurando uma estrutura em formato de grade, composta por um conjunto de 441 peças retangulares de mdf (5x17,5x2cm cada), pintadas com acrílica preta, apoiando-se sobre o piso, ocupando uma área de 5x200x400 cm. Este conjunto foi analisado, ponderado e revisto ao longo de meses, tendo o artista brasileiro desenvolvido uma pesquisa detalhada sobre a arquitetura, ajustando à distância e através de algumas conversas, os esboços do que seriam as intervenções mais pertinentes. Movimento #8 foi desenvolvido a partir de primeiro episódio feliz quando da sua exposição individual realizada para a Sala do Projeto Fidalga (Ateliê Fidalga) em São Paulo, 2014.

 

ANTES 2

Em 2015, escrevendo acerca do projeto “Em expansão”, referi quanto o título se apresentava como denominador comum, mesmo cumprindo a função de elemento agregador das peças apresentadas, pertencendo Série Fluxos, 2015. Tratava-se, então, de um desenho compósito instalado na parede da Casa do Marquês, pertença do Politécnico do Porto. O conjunto de 2.000 peças de vinil adesivo (cada 1x5 cm) desenvolvia-se numa dinâmica Gestaltiana, ocupando uma área de cerca de 240x850 cm. Associe-se esta peça àquelas que, nesse mesmo ano e na mesma cidade, o artista paulista mostrara, relembro as duas grandes instalações de desenho tridimensionalizado, antes evocadas: Manifestações #4 e Movimento #8.
Quer o termo Manifestação, quer o termo Movimento direcionam para a ação em várias aceções. No caso do primeiro termo - manifestação, o segundo termo - movimento pode estar implícito que seja um seu cúmplice… Significará um estado de quase obrigatoriedade mesmo, suscetível de concatenar, agregar atuações, procedimentos sucessivos; ser pautado por um crescendo, esperando seja obtida uma adesão cumulativa de várias pessoas e geradora de consequências proclamatórias. Numa outra aceção, o mesmo termo poderá, quase pelo contrário, encerrar uma passividade, prescrevendo disponibilidade e quietude para que algo se venha a desvelar – aqui, manifestação equivalerá a “revelação”, uma [quase] epifania.
O desenho passou a ser plasmado na superfície de paredes, podendo mesmo atingir áreas muito extensas, criando ondas óticas e induzindo os visitantes a deslocaram-se, aproximando-se ou distanciando-se. Os desenhos instalados induzem, impulsionam os espetadores para agirem. E, por diante, seguiriam muitas mais articulações de entendimento e extrapolação. Estas servem-nos, de momento.
Atendendo, agora, ao termo movimento, as inúmeras significações – denotativas e conotativas são inúmeras, destacando-se aquelas que – à semelhança do termo anterior – podem ser operacionalizadas para progredir na análise das obras de Renato Leal. Destaquem-se as primordiais: movimento humano aberto e externallizado, objetivado por uma condição psicofisiológica motora, cuja amplitude está diretamente relacionada à função a cumprir, deliberada pela intencionalidade racionalizada + intuitiva que a provoca, dirige e concretiza. Os movimentos, deste teor, são infinitos e supostamente integram inumeráveis subcategorizações e tipologias. Depois, o movimento que se invisibiliza na aparente paragem ou quietude. Que pode ser fixo, congelado ou cinemático. O movimento pode ser interno, pensado e não realizado mas existindo em termos de latência e sendo potencial. Intrínsecos e dissimulados na/pela identidade que não possui imagem explícita, os movimentos internos são poderosos e comandam e capacitam os humanos para obtenções [in]suspeitas. Assim, joguemos “ações” num tabuleiro, tomando quatro coordenadas por bases: as duas procedendo da manifestação e outras do movimento, para não ir mais além e sem fim. Veja-se:
1. Manifestação ativa/acionada, extrovertida, intensa de atividade enfática;
2. Manifestação passiva, recetora poderosa e emissora eventual de ação;
3. Movimento efetivo e propulsor, encadeando gestos e impulsos cinéticos, ordenando uma espiral;
4. Movimento interno, encoberto apenas dizente no pensamento invisível, motivando ações inesperadas, consequências repentinas...
Eis as bases conceptuais e acionadoras, os operadores poiéticos que gerem as 9 ações subsumidas nas respetivas salas da Casa Museu Medeiros e Almeida e que resultaram do trabalho de pesquisa e criação desenvolvido a partir de 2014/2015.

ENTRE ANTES 2 e AGORA 1

O desenho é, pois, resultado desse desdobramento projetivo – manifestação + movimento, tocando ao espetador traçar, marcar com o seu próprio corpo no espaço, convertido numa das componentes funcionais de um jogo estético sem previsão, nem limite de participantes. As regras subsistem na teoria ótica, na teoria da perceção, nas ideologias congregadoras de públicos que fruem uma Gestalt deliberada, disfrutando de ações under any controle at all e vaticinando descobertas sinestésicas.
As linhas organizam-se - simuladamente - através do fechamento [de e] dos intervalos medidos entre as unidades/traços, dirigindo uma confluência dinâmica de eixos horizontais, verticais e oblíquos. Sem esgotar a capacidade de observar as redes que preenchem as suas composições – quase labirintos complexos, privilegie-se o rumo das ideias que sobressaem da capacidade que Renato Leal possui para delinear introspetivamente a organização fundante, tornando-a como implementação fraseológica e coreográfica ao mesmo tempo.
A concatenação das unidades/traços serve-se do exercício matemático, onde a cronologia vivida por cada pessoa tem espelhamento e tensão, traduzida na capacidade de acompanhar os movimentos invisíveis que lhe cabe acionar, pela simples residência de olhar pela mudança de lugar de seu corpo no espaço onde os desenhos estão instalados. O acumulo de movimentos no espaço e no tempo, nas aceções sobrepostas e entrecruzadas das coordenadas primordiais do humano, já Kant o avisou.

ENTRE ANTES 1 e AGORA 2

Para considerar uma hermenêutica do desenho, ao tempo da contemporaneidade [atualizada], cumpre retroceder às primeiras décadas do séc. XX, na pessoa de um dos autores emblemáticos no panorama português – Almada Negreiros, quando este assinalava: “...para lá de uma lúcida meditação da linguagem do desenho e sua gramática, muito próxima dos temas de reflexão dos melhores representantes da arte moderna”1. A sua teorização acerca do desenho está consubstanciada no conceito de Ver, através de cuja fundamentação procurou “…abrir as fundações de um conhecimento pelos sinais visíveis, de um tempo sem tempo, uma semiótica do visual, uma simbólica das formas geométricas mais simples (as mais difíceis) ou, como Almada preferia dizer, a antegrafia de formas de pensamento menosprezadas ou olvidadas pela memória.”2
A dimensão formativa, no domínio do educacional para quem se preze agir pensando, e que é atributo do desenho — a nível conceptual, da praxis e da pragmática — traduz uma convicção estética prioritária, afirmada pelo autor português do Modernismo, consignada na noção de desenho como linguagem primordial do humano.3 Ciente das exigências do desenho, asseverava que quem dominasse com mestria essa linguagem, dominaria a sua condição de ser, identificar-se a si entre e perante os outros, reconhecendo-os por reflexo e dádiva – ao que eu acrescentaria por indução do autor, para quem seja espetador... O valor formativo do desenho, enquanto dom e exercício educacional do pensamento visual, atua em consentaneidade manifesta, e por transposição, ao trabalho elaborativo do entendimento humano, que é instigador de conhecimento. A afinidade ao entendimento reconhece-se na forma do próprio desenvolvimento do desenho: pensamento rigoroso, lucidez nas decisões, clareza contrastada na execução, simplicidade, ou seja, as qualidades que se reconhecem na prática do artista. O desenho exige e impõe disciplina, condições únicas que garantem assentimento e êxito; obriga à aceitação da obediência, um tipo de obediência interna e individuada – perante si - que significa lealdade para consigo mesmo, “para com os nossos sentidos, órgãos do entendimento.”4 E o desenho é, portanto, um dos paradigmas de inovação.
O desenho de Renato Leal foi ponderado, pensou-se no espaço de lá, unido pelas linhas que atravessam o oceano e o tornam inteiro e pessoal até chegar aqui. A lição sobre o desenho, seguindo a tradição europeia ocidental, tanto quanto a sabedoria sublime das filosofias e poéticas orientais possibilita, em termos invisíveis e por via da meditação, as transfigurações que o artista sabe idealizar, num cálculo que roça o quase hermetismo ou, pelo menos a sua ação lúdica e justa.

 

AGORA 2

No soalho da CMMA, onde os losangos parecem quadrados, quando olhados de viés, as formas geométricas não fogem da sua organização estoicamente pensada pela arquitetura e pela decoração. Os soalhos de marchetaria parecem desenhados a partir da aplicação da relação áurea, alastrando “gregas”, sinais visuais que se repetem, tanto se repetem, repetem…até serem diferentes, seguindo Manoel de Barros, o grande poeta de Goiás. A repetição é outro dos conceitos primordiais na concepção que Renato Leal nos conclui, finalizada a obra. A morosidade da repetição associa-se à diferença que distingue definitivamente uma instalação de outra, e cada desenho instalado de um outro que, afinal seja uma escultura – como se sabe. Nas paredes, em perspetiva área ou lateral, seguimos as evoluções geométricas mais do que simbólicas, dignas quantificações de memórias de figuras singelas, enxutas.
Revendo as 9 ações que se assumem enquanto manifesto estético, premeditando a ilusão de morfologias que, de imaginárias se convertem em produtos que emprestam imagens de si aos demais. São elas:
        1. mutação,
        2. rotação,
        3. diluição,
        4. projeção,
        5. desalinhamento,
        6. indução,
        7. expansão,
        8. compressão
        9. distorção
…todas rigorosas e efémeras, alojadas nos 9 espaços escolhidos pelo artista.

“A Arte ultrapassa as fronteiras nas quais a época quereria confiá-la e traz o conteúdo do futuro.”

Maria de Fátima Lambert , 2017

 

1 Lima de Freitas, Pintar o Sete — Ensaios sobre Almada Negreiros, o pitagorismo e a Geometria Sagrada, Lisboa, INCM, 1990, p.35 

2 Idem, ibidem, p.35.

3 O seu domínio pessoal do desenho era da maior relevância, como o entendeu Fernando Amado, considerando-o, a “alma da pintura”. Vide Fernando Amado, “Os desenhos de Almada”, Variante, nº de Inverno, 1943.

4 Almada Negreiros, “O Desenho”, Ensaios, Lisboa, INCM, 1993, p.27