CIÊNCIA DO INVISÍVEL & DINÂMICAS EM EXPANSÃO

 

   É caso de “desenho instalado”, o que significa que o desenho aceita sedentarismo, mesmo quando os seus conteúdos sejam nómadas e viajantes. O desenho combate o esquecimento, apressa a demora ou suscita a duração? Estende, amplia o instante de algo pensado, imaginado ou visto. Algo que tarda para ser pensado e tornado visível mediante a consciência que o corpo toma, ao concentrar ou expandir o gesto do braço, da mão, dos dedos que enganam a perceção tornando-a mais e mais subjetiva – do autor ao espetador, o desenhista é um demiurgo de almas traçadas no papel.

   Não importa tanto o que é o desenho (o que nele se reconhece, o que representa) mas como é. É relevante o “como” do desenhado, mais do que “o que é” desenhado. Constata-se uma lógica, uma coerência, um plano implícito que subjaz, determinando a sua essência enquanto desenho para uma atualidade do desenho. Envolve escolhas e deliberações lúcidas por parte dos artistas.

 

Dinâmica do Invisível

As duas instalações para a QuaseGaleria corresponderam a um desafio a Renato Leal para realizar uma exposição individual no Porto. Na sequência da sua participação com Amélie Bouvier, Nazareno, Paulo Climachauska e Sofia Pidwell na mostra coletiva “A pele e espessura do desenho” (subtítulo “Desenhos acumulados e subtraídos na superfície do oceano”), inaugurada a 18 de maio, na Fundação Portuguesa das Comunicações em Lisboa, o artista aceitou a proposta inicial que viria a desdobrar-se numa 2ª exposição também no Porto, inaugurando a programação cultural da Casa do Marquês, nos 30 anos do Politécnico do Porto. Assim, torna-se inevitável articular as três presenças do artista de São Paulo, neste mês de maio português. Em Lisboa, o denominador comum entre os 5 artistas traduz-se na afinidade formal das unidades gráficas específicas. O que se vê, e está para ser visto, ganha diversidade identitária ao atender àquilo que sejam as poéticas carateriais dos desenhos, revelando as suas condições únicas. Também a relação ao espaço que alberga e faz nascer os desenhos, revela sentidos e atitudes que ora se vêm centríptos ou centrífugos. São trabalhos que promovem a educação do olhar que deseje ver em minúcia e pormenor, criando intervalos de olhar abrangente e quase panorâmico.

   A sua primeira formação em Arquitetura não é alheia à exigência de um exercício fenomenológico de perceção do espaço, respeitando-o e interpretando-o para a organização dos seus projetos bidimensionais e daqueles que possam suscitar, convertendo-se à tridimensionalidade. Tendo optado pelo desenho sobre pintura ou a pintura desenhada, consoante os casos, como tipologia de trabalho plástico, Renato Leal quis apropriar-se das áreas expositivas, expandindo-as e instalando-se. Assim, surgiu a designação de “desenho instalado”, numa relação que, nalguns casos se associa ao conceito de site specific e noutros, à situação de desenhos efetivos que ocupam as paredes de forma assertiva e inequívoca. Noutros casos, ainda a matriz do desenho tornou-se volumetria, espessura (que não somente pele) e alastrou chão e parede, rebatendo estruturas, grelhas (grids) e redes. As unidades gráficas pintadas a Nanquim, grafite ou marcador, que consubstanciam os desenhos de séries de desenhos Céu, Oceano, Paisagem, Nuvens ou Superfícies, transformaram-se em sinais visuais, convertendo-se à regularização, sob formatos retangulares e redondos absorvendo a densidade da cor preta. Os materiais escolhidos são aglomerados de madeira, pintados manualmente, num exercício simultaneamente de concentração rigorosa e paciência lúdica. As instalações adquirem formatos e suportes adaptados às áreas definidas no local expositivo. O autor pensou numa situação conjunta, estabelecendo uma conversa entre as 2 obras compósitas. No átrio, as pequenas peças redondas pontuam uma mancha subida à parede e constituída por linhas quase paralelas que insinuam movimentos internos e desafiam a capacidade de observação do visitante. Trata-se de Manifestações #4, da série Atrações (conjunto de 900 peças circulares de madeira, 1,5x1 cm cada uma). Consoante as pessoas circulem no átrio, a sua perceção das peças vai-se alterando significativamente, instaurando um jogo viso-recetivo em aberto. A interpretação visual implica uma acuidade que pode derivar para a evidenciação de tópicos de Gestalt, endereçando associações óticas e cinéticas, mas também associáveis a consignações seriais adstritas a indexação minimalista. As compreensões literais destas linguagens plásticas não se aplicam às intencionalidades do artista em causa. As argumentações convergem para um pensamento estético que exercita o pensamento, numa práxis viso-poética que propicia uma configuração poético-concreta, aqui tridimensionalizada e instalada na arquitetura do lugar. Na sala principal a instalação intitulada Movimento #8, da série Fluxos rebate numa superfície, configurando uma estrutura em formato de grade, composta por um conjunto de 441 peças retangulares de mdf (5x17,5x2cm cada), pintadas com acrílica preta, apoiando-se sobre o piso, ocupando uma área de 5x200x400 cm. Este conjunto foi analisado, ponderado e revisto ao longo de meses, tendo o artista brasileiro desenvolvido uma pesquisa detalhada sobre a arquitetura, ajustando à distância e através de algumas conversas, os esboços do que seriam as intervenções mais pertinentes. Movimento #8 foi desenvolvido a partir de primeiro episódio feliz quando da sua exposição individual realizada para a Sala do Projeto Fidalga (Ateliê Fidalga) em São Paulo.

 

Em Expansão

 “Em Expansão” é o título agregador das peças apresentadas na Casa do Marquês, integrando Expansão, da série Fluxos, 2015. Trata-se de um desenho instalado na parede, por meio de um conjunto de 2.000 peças de vinil adesivo (cada 1x5 cm) definindo uma área de cerca de 240x850 cm. Dois desenhos a nanquim sobre papel, Construção #1 e Construção #2, ambos da série Estruturas de Energia, 2015 completam a sua intervenção neste novo espaço de extensão cultural do Politécnico do Porto.

   Após uma primeira intervenção artística em locais do Politécnico do Porto na cidade, assegurada pelo desenho de Daniel Caballero e executado por Estudantes de Artes Visuais da Escola Superior de Educação, cabe inaugurar a Casa do Marquês. O título outorgado à mostra, por parte de Renato Leal, parece premonitório: “Em expansão”. Ao longo deste ano 2015 vão suceder-se outras intervenções e exposições artísticas na Casa do Marquês expandindo portanto os horizontes do Politécnico, relacionando-se assim mais diretamente com a comunidade. Localizada num dos eixos centrais e históricos da cidade, situa-se do lado nascente da Praça do Marquês, olhando-se as árvores centenárias, a fonte e o coreto, caminhos de terra batida onde circulam os vizinhos destes bairros do Porto. Pretende-se que a Casa do Marquês albergue iniciativas de artes performativas permitindo, ainda aos seus visitantes, usufruir de um jardim extenso e polivalente. Na sala do piso intermédio, exatamente com vista para o jardim, olham-se ao lado esquerdo, através das grandes portas da varanda, as traseiras da Igreja de Nossa Senhora da Conceição - sito à Rua da Constituição. O casario circundante suscita uma respiração de horizonte urbano expandido, onde a vegetação e o céu se confrontam e destacam morfologias distintivas…parafraseando o termo impulsionado por Rosalind Krauss. Ultrapassados os eixos estabelecidos pela historiadora de arte, a expansão em causa de desenho instalado, abeira-se de territórios algo insólitos para algumas pessoas, pois correspondem a uma proposta gráfico-pictural inovadora também quanto aos materiais usados. A concretização dos desenhos preparatórios para a intervenção tornou possível a cumplicidade entre diferentes protagonistas desta instituição de ensino superior, juntamente com o artista e a população em geral. A montagem da exposição desenvolveu-se com a participação assídua de um grupo de Alunos da E.S.E. (Gestão do Património) que cumpriu as orientações do artista, viabilizando um projeto partilhado entre todos. O registo criativo – fotografia e vídeo - desta programação de Renato Leal no Porto foi da responsabilidade de dois grupos de Alunos do DAI/ ESMAE (Tecnologia da Comunicação Audiovisual). A articulação de tarefas convergindo para um mesmo objetivo exprime a dualidade cúmplice entre o educacional e o cultural, consubstanciando-se na intervenção artística que fica, contrariando a sua efemeridade, na memória de todos os intervenientes. Através de uma visibilidade simbólica que se extrai na piéce de resistence da Sala, os traços são fechados, recortados em vynil preto que simula um movimento aberto controlado, rodopiando a perceção visual, numa conciliação entre o abstrato geométrico e o barroco desdobrado. O desenho passou a ser plasmado na superfície da parede numa área muito extensa, criando ondas óticas e induzindo os visitantes a deslocaram-se, aproximando-se ou distanciando-se. O desenho também é feito por esse desdobramento que cada um dos espetadores realize com o seu corpo, tornando-se parte integrante de um jogo sem limite de participantes. As linhas organizam-se simuladamente através do fechamento entre as unidades/traços, numa confluência dinâmica de eixos horizontais, verticais e oblíquos. Sem evocar labirintos complexos, antes um encaminhamento de ideias que sobressaem da capacidade de desenhar internamento a organização fundante para uma implementação fraseológica e coreográfica ao mesmo tempo. A concatenação das unidades/traços serve de exercício matemático, onde a cronologia vivida por cada pessoa tem espelhamento e tensão. Para atender a uma hermenêutica do desenho ao tempo da contemporaneidade, quanto do atual, cabe sempre retroceder às primeiras décadas do séc. XX, na pessoa de um dos autores mais emblemáticos no panorama português – Almada Negreiros, quando este assinala: "...para lá de uma lúcida meditação da linguagem do desenho e sua gramática, muito próxima dos temas de reflexão dos melhores representantes da arte moderna". A sua teorização acerca do desenho, está fundamentada no conceito de Ver procurou "…abrir as fundações de um conhecimento pelos sinais visíveis, de um tempo sem tempo, uma semiótica do visual, uma simbólica das formas geométricas mais simples (as mais difíceis) ou, como Almada preferia dizer, a antegrafia de formas de pensamento menosprezadas ou olvidadas pela memória." Como referi antes, a dimensão formativa, no domínio do educacional, atribuída ao desenho — a nível conceptual, da praxis e da pragmática — corresponde a uma das dominantes convicções estéticas afirmadas pelo autor português do Modernismo, baseado na noção de desenho como linguagem primordial do humano. Ciente das exigências do desenho, asseverava que quem dominasse com mestria essa linguagem, dominaria a sua condição de ser, saberia identificar-se a si entre e perante os outros, reconhecendo-os por reflexo e dádiva. O valor formativo do desenho, enquanto dom e exercício educacional, atua em consentaneidade manifesta, e por transposição, ao trabalho elaborativo do entendimento humano, que é indutor de conhecimento. A afinidade ao entendimento reconhece-se na forma do próprio desenvolvimento do desenho: pensamento rigoroso, lucidez nas decisões, clareza contrastada na execução, simplicidade, ou seja, as qualidades que se reconhecem na prática do artista. O desenho exige e impõe disciplina, condições únicas que garantem assentimento e êxito; obriga à aceitação da obediência, um tipo de obediência interna e individuada – perante si - que significa lealdade para consigo mesmo, "para com os nossos sentidos, orgãos do entendimento.”O desenho pensou-se no espaço de lá, unido pelas linhas que atravessam o oceano e o tornam inteiro e pessoal até chegar aqui.
    
Maria de Fátima Lambert , 2015

 

1- Margaret Davidson, Contemporary Drawing – key concepts and techniques, N.Y., Watson-Guptill, 2011.

2- Lima de Freitas, Pintar o Sete — Ensaios sobre Almada Negreiros, o pitagorismo e a GeometriaSagrada, Lisboa, INCM, 1990, p.35.

3- Idem, ibidem, p.35.

4- O seu domínio pessoal do desenho era da maior relevância, como o entendeu Fernando Amado, considerando-o, a "alma da pintura". Vide Fernando Amado, “Os desenhos de Almada”, Variante, nº de Inverno, 1943.

5- Almada Negreiros, “O Desenho", Ensaios, Lisboa, INCM, 1993, p.27